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Essas carícias

12/04/2012 by Sam

Esses dias fiquei pensando sobre demonstrações públicas de carinho. Quando vivia como hétero e namorava garotas, não gostava de beijar na presença de outras pessoas. Me sentia exposto, desconfortável. Ainda me permitia andar de mãos dadas porque era quase lei para um casal de namorados. Talvez tivesse medo de alguém notar, pelo meu desempenho durante o beijo, que eu era gay. Talvez não. Nunca parei para analisar se me preocuparia com isso no caso de encontrar um namorado hoje. Mas provavelmente seria um ponto bastante discutido.

É natural que as pessoas que se amem, demonstrem seu carinho, seja no sofá de casa, num encontro na rua ou mesmo caminhando pela calçada. Não se pode censurar o amor, nem o momento que ele surge. Um sorriso e um abraço sincero não podem esperar. Sentimentos brotam e morrem. E as pessoas sabem disso. Ainda assim, o constrangimento pelo afeto em público, parte primeiro de quem o faz. Mas quando ele é verdadeiro e genuíno, fica bem mais fácil de ganhar a compreensão dos outros.

Tenho visto nas últimas semanas, um grande número de casais gays pelas ruas. E visto também os diversos tipos de reação. Sempre, em todos os casos que presenciei, por mais simples que fosse o carinho, havia alguém olhando e soltando aquele famoso risinho. Mas também vi um ‘que lindo!’ de uma moça, ao observar dois garotos se despedirem, bem afetuosos, numa manhã de domingo.

Confesso que quando vejo algum casal, foco as minhas atenções, bem mais, na reação das pessoas próximas, para tentar descobrir como estão encarando a homossexualidade na sociedade de hoje. E tenho ficado surpreso por ver que aquelas pessoas que olhavam a ponto de agredir, tem diminuído bastante. O que predomina são as risadas que surgem como se estivessem diante de uma situação cômica. Principalmente héteros que ainda não conseguem entender como um homem é capaz de beijar outro.

Tem sido comum me encontrar com um casal que costuma frequentar o mesmo shopping que eu. Desde o primeiro momento que os vi, percebi uma coisa estranha. Eles se empenhavam em deixar claro para todos que eram um casal gay e não poupavam as intimidades, muitas, nitidamente, sem o menor propósito. Saíram da zona do espontâneo para a provocação. Era assim que parecia. Que eles estavam a fim de provocar as pessoas, ainda não tão habituadas com carícias entre dois homens. Não por menos, obtiveram as reações mais explícitas.

Fico pensando. Os gays devem lutar pelos seus direitos. Sim, nós temos muito pela frente ainda. Mas nada será alcançado à força. Até para se aceitar, há o tempo. Não precisamos ficar “agredindo” as pessoas com nossos comportamentos, para garantir nosso espaço. Ele será conquistado com os anos, a tolerância e o respeito.

Não posso comparar um casal hétero que se beija na rua com um gay. Ninguém se importa com um garoto e uma garota que andam de mãos dadas. Como disse no início, é quase lei. Não choca mais. Mas lembrem-se que o beijo em público, mesmo entre héteros, já foi mal visto. Os jovens que o faziam eram levianos, promíscuos. Mas o tempo passa, as pessoas crescem, os conceitos mudam.

E como disse, a educação e o respeito, de ambos os lados, produzem grandes resultados. Geram momentos preciosos, como o que presenciei essa semana, na orla de Copacabana. Um casal gay caminhava abraçado e conversando, tão discretamente, que pareceu natural não só para mim, mas para quem cruzava com eles. Claro, houve quem olhasse e risse da situação. Mas ao final do sorriso, veio um gestual de cabeça em sinal de positivo, como quem diz, “é isso aí”.


1 Comentário »

  1. kaioby disse:

    Concordo com suas ponderações,mas com uma coisa fiquei preocupado:você se esquece que os que mais se incomodam
    com esses comportamentos gays explicitos não são os hete-
    ros de verdade,mas os gays que resistem a sair do armario.
    Deixe os heteros em paz que eles pouco tão se lixando pra
    quem é gay.A grande expectativa e atenção para com estes
    comportamentos parte de gays em conflito com suas tenden-
    cias.Concordo com você que isto demanda tempo.

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