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Alimentando o perigo [parte II]

30/03/2012 by Sam

Eu estava encostado na parede. Qualquer movimento ou atitude minha poderia me comprometer no que eu viesse a argumentar. Com o cartaz e a carta para Dante em mãos, minha mãe aguardava uma resposta, gélida como sua consciência. No fundo eu sentia que a mais descabida justificativa que eu viesse a dar naquele momento, encontraria lógica no raciocínio dela. Tudo seria aceitável, desde que conseguisse explicar o que uma carta de amor endereçada a um rapaz estava fazendo no caderno de seu filho.

Por sorte, ou por falta dela, embarquei na viagem que eu mesmo havia idealizado. Minha prima estava apaixonada por Dante, não tinha coragem de se assumir, resolveu escrever-lhe e pediu minha ajuda para entregar a carta. Afinal, não era isso que dizia no papel? A letra nem minha era. Parece que eu estava mesmo prevendo todas as possibilidades que aquela minha iniciativa poderia resultar. E logo, minha explicação foi ganhando terreno na mente da minha mãe. Suas únicas indagações foram a respeito de como minha prima o conheceu. Nem levou em análise a diferença de 5 anos entre ambos, e o detalhe que minha prima de 21 jamais se interessaria por um garoto de 16, nem mesmo precisaria de tais artifícios para conquistá-lo.

Mas a justificativa estava dada. Seu filho, para alívio da consciência, não era “veado”. Tudo não passara de um mal entendido. Opa! Por que a carta estava então ainda comigo? Ah, por acaso, esqueci de entregar e não estava levando muito a sério a súbita paixão da minha prima. Então, dobrando os papéis e já tomando posse deles, minha mãe partiu para a cozinha na missão de dar descaminho àquelas confidências que poderiam colocar em risco a reputação de seu filho. Pouco importava se sua sobrinha conseguiria ou não declarar seu amor. O que não podia de jeito algum era que eu continuasse com aquilo no meu caderno.

Não fiquei satisfeito. Apesar de ter conseguido me sair razoavelmente bem, me sentia em análise. A dúvida pairava no ar. Tanto a minha, ao pensar se realmente minha mãe havia embarcado na desculpa, como a dela, se de fato era verdade o que tinha lhe contado. E esse clima de tranquila aparência se prolongou por algum tempo. Eu estava cada dia mais cauteloso em minhas atitudes para não deixar no ar a menor dúvida sobre minha sexualidade. Mas me sentia em suspeita. Tomei algumas providências a fim de garantir que mais nada vazasse na minha história, e adulterei o telefone da minha prima na agenda. Cheguei até a mudar a caligrafia. E em decorrência disso, a letra redonda que havia cultivado até aquela idade, ganhou contornos mais formais, que me acompanham até hoje.

Ainda assim, estava preocupado que a mentira pudesse perder fôlego, e resolvi fornecer mais combustível para sua resistência. Logo me vi repetindo a mesma história para Lisa, minha namorada. Aos poucos, eu mesmo estava acreditando naquela farsa. Sempre tive a capacidade de embarcar nas minhas ilusões e torná-las praticamente reais. E Lisa adorava me provocar ciúmes ao falar dele. E eu adorava vê-la fazendo isso. Dante virou ‘nosso assunto’! Sem perceber, o garoto que me lembrava Murilo Benício, entrou em definitivo em nossas vidas. Lisa me pedia que levasse recadinhos, que eu fingia chegar até ele. E Dante tinha reações à la minha imaginação.

Até que uma feira de ciências na escola resolveu brincar com essa realidade. Três noites de exposições de trabalhos de todas as turmas movimentaram a escola. Lisa e minha mãe, assim como as famílias de cada aluno, foram prestigiar o evento. Elas já tinham deixado claro que estavam desejosas por conhecer Dante. Ou seja, meus dois mundos estavam prestes a colidir. Na primeira noite, tive a sorte de não localizar Dante em lugar algum. Parece que ele não havia ido mesmo. E para meu alívio, nem Lisa, nem minha mãe chegaram a conhecê-lo. Na segunda noite, foi o contrário, elas não foram, e Dante circulou com todo seu charme pelos corredores da escola.

Entretanto, a correnteza virou na terceira e última noite da exposição. Lisa e minha mãe me acompanharam, e ao chegar, encontrei o perigo ainda na entrada. Mas como elas não o conheciam nem por fotografia, passei reto e fingi naturalidade. Contudo, não se encontra um garoto parecido com Murilo Benício em toda esquina, e bastaram algumas horas correrem, pessoas circularem, e Lisa percebe Dante.

- É aquele, num é? E você disse que ele não tinha vindo.

Pronto! Já era! Ela encenou o gritinho que havia ensaiado para quando o encontrasse, e logo me vi tapando sua boca, para que não só Dante e os outros ouvissem, mas também minha mãe. Em vão. Notando que ele, de fato, se encontrava na escola, minha mãe insistiu para que eu a levasse até sua sala e a apresentasse. Aleguei que precisava voltar à exposição da minha turma e as deixei circularem sozinhas. De olho nelas, não demorou muito, e percebi quando entraram na sala do 2º ano. Em pouco tempo, batiam papo com o próprio Dante. Um papo que nunca nem eu havia trocado. Era o fim! Agora com certeza tudo seria descoberto. Não havia prima nenhuma interessada nele, ele sequer me conhecia, e muito menos me convidara para conhecer sua cidade. O que explicaria à minha mãe agora? E Lisa? O que diria a ela? Como encarar Dante a partir de então?

O pânico me cercava, quando elas saíram da sala sem muitas expressões. Minha mãe parecia ligeiramente tensa. Dante e a colega do lado ainda terminavam o risinho, do que parecia ter sido uma conversa, no mínimo, divertida. O que teriam conversado? Um buraco para me enterrar! Um controle remoto para parar o tempo! Uma borracha para me apagar do mundo! Era tudo que eu queria. Elas agora vinham à minha procura. O que fazer? Como explicar que eu nunca existi aos olhos de Dante? Como justificar tantas mentiras? Haveria chegado a hora de assumir de vez o verdadeiro garoto que habitava em mim, ou teria condições de elaborar mais histórias fantasiosas para escapar outra vez? Sem mais pensar, tomei o rumo da minha sala, disposto a encarar o inevitável, fosse ele qual fosse.


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