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Sou gay, mãe

22/03/2012 by Sam

Eu sou gay. Desde quando? Desde sempre. Quem me conhece, estranha. Mas você não era assim. Você namorava, queria casar, ter filhos. Mas ainda posso. E hoje posso com mais propriedade, pois serei sincero primeiro com quem mais importa, eu. Imagino minha mãe lendo essas linhas. Imagino a mãe de qualquer gay encarando a realidade do filho. O primeiro momento é sempre um precipício. O chão desaparece, e enquanto ela despenca no buraco escuro, imagens do filho gay aparecem à sua volta. Aquele menino ingênuo, educado, companheiro e sensível, agora sairá rebolando, xingando as pessoas, usando batom e meia-calça. Onde foi que eu errei?

No mesmo instante, todo o passado da criação do filho é vasculhado, na tentativa de encontrar uma resposta, uma justificativa, uma explicação para o inexplicável. Nada. Ai, mas a culpa deve ser dos mimos da avó, a influência daquele tio depravado, a ausência do pai, os amigos esquisitos do teatro. Como se a sexualidade fosse uma droga que se experimenta e pode levar ao vício. Não é de se espantar que muitos pais tenham internado seus filhos em clínicas para a reabilitação sexual.

Mas não, mãe, eu ainda sou o mesmo filho de antes. O mesmo garoto quieto, comportado, sensível, ajuizado. A educação que recebi não vai mudar por que prefiro os meninos às meninas. Não vou trocar meu guarda-roupa por que assumi uma realidade que esteve comigo a vida toda. Há quem goste realmente de adotar um visual feminino, forçar nos trejeitos. Mas esses também sempre o foram assim. Eu não, mãe. Eu estou feliz com as minhas roupas, com meu jeito, com minha condição de homem. A única coisa que não posso continuar usando é a veste de hétero. Isso não.

Ah, é exatamente aqui que surge o segundo momento de choque dos pais. Não terei netos? Não posso adivinhar o futuro, mãe, mas provavelmente de sangue será difícil. A menos que tenha outros filhos héteros. E mesmo assim, filhos héteros não são garantia de reprodução. Quantos héteros conheço que nunca tiveram filhos, que nunca foram avós. E eu ainda posso adotar, se quiser. A burocracia vai ser maior no meu caso, mas há uma chance. Só não esqueça, mãe, que antes de serem seus netos, serão meus filhos, então eu devo ter o direito de querer tê-los ou não.

Passados esses dois momentos, é hora de encarar a sociedade. E essa é uma tarefa que exige muito preparo. Embora um pouco esclarecidos a respeito da homossexualidade, os pais insistem em não assumir a identidade do filho perante os amigos, a família. Afinal, eles, os pais, podem compreender melhor o mundo gay, mas os vizinhos, os de fora, ainda não têm essa compreensão. E o conhecimento quando não se é partilhado é sinal de vergonha. Mas vergonha do próprio filho? Demora um pouco até eles entenderem que a opinião alheia é o que menos importa.

Nessas horas, mãe, fico pensando como teria sido bom se tivesse tido seu apoio desde o início. Quantas garotas não teria enganado, quantas decepções teria evitado, quantas mentiras não teriam sido ditas. Mas fui preparado para ser macho, ‘pegar’ garotas, tomar cerveja, jogar futebol. Lembra das suas tentativas de me aproximar do futebol? Todos aqueles domingos à tarde no campinho atrás da torre de rádio ou na quadra da escola, cuja chave você fazia questão de ter acesso, para jogarmos no fim de semana. Tudo se harmonizava, menos seu filho com a bola. E até que tentei, fiz o que pude. Mas estava claro como um dia de verão que eu não tinha vocação para artilheiro.

E como você insistia! Me comprou várias bolas, avisava meus amigos, praticamente nos empurrava para jogar futebol. E mesmo sendo o dono da bola, eu sempre era o último a ser escolhido pelos meninos. Comigo no time era sinal garantido de desfalque. Arrisquei ficar no gol, facilidade pro time adversário. “Que droga, Sam! Segura essa bola!” É, não dava. Decepção, minha mãe? Ou medo? Tudo isso era medo. Medo de que se seu filho não tivesse contato com o que era “saudável” a todo menino, ele pudesse se enveredar pelos caminhos “errados”. Pudesse “virar” ‘veado’. Mas todo esse medo é porque eu já era, e lá no fundo, você já sabia.

Compreendo perfeitamente que nenhum pai quer ver seu filho sofrer, ser humilhado, ridicularizado. Mas no mundo em que estamos, ainda é inevitável para quem nasce gay. Depois de enfrentar primeiro a própria homofobia, quando nos vemos os vilões de um mundo perfeito, temos ainda toda uma sociedade carente de conhecimento, que só encontra na violência sua reação.

Hoje, depois de anos sonhando com um gênio da lâmpada que pudesse me transformar em hétero, eu vejo a minha homossexualidade como um prêmio. Me sinto privilegiado de fazer parte do universo gay, de obter um conhecimento a mais a respeito da sexualidade humana. Essa compreensão nos torna mais humanos, mais sensíveis e tolerantes com o mundo. Percebemos que não somos esse quadrado perfeito que a sociedade prega. Não, temos muito mais ângulos. E não podemos ignorar a existência deles. Falta apenas disposição e humildade para conhecê-los.

Por isso, minha mãe, não posso de maneira alguma lhe negar o direito de obter esse crescimento. Você, assim como todas as mães de gays, devem conhecer a verdade sobre seus filhos, e ao compreendê-los, compreender também um pouco do mundo. Hoje, você ainda acredita na imagem que alimentei do filho hétero que lhe dará uma nora e um casal de netos, mas o momento oportuno da realidade irá chegar. E eu espero que nesse dia, a homossexualidade seja menos castigada, os pais compreendam que seus filhos terão uma sexualidade quando crescerem, independente do desejo dos pais. Que as crianças possam crescer enxergando qualquer descoberta sexual como um processo natural. Eu espero que nesse dia, minha mãe, você me abrace e, como sempre, diga que a minha felicidade é a sua maior alegria.


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